Lúcio Feres, o Diabo, arrasta os pés na superfície do linóleo em busca dos chinelos de dedo. São cinco da manhã, o quarto escuro, segunda-feira. Antes de levantar, tivera um sonho: andava de ponta a ponta do escritório carregando uma gaveta de arquivos mortos. Após a informatização e devido armazenamento de antigos dados em disquetes e arquivos de computador, uma quantidade enorme de papel era agora desnecessária e sempre havia o que pôr no fogo. Só que dessa vez Lúcio Feres não atravessava o escritório, não descia as escadas nem avançava pelo pátio até encontrar o incinerador: carregava a gaveta até a porta, respirava com uma estranha cara de satisfação o mofo das escacelas e voltava ao ponto de partida, para depois reiniciar o percurso. Como sempre, Miguel Arcanjo sorria com superioridade a um canto, os punhos da camisa dobrados até o cotovelo, a gravata-que-o-cunhado-trouxe-da-Itália, manchada de gordura, pendendo como um falo decadente e orgulhoso. No sonho, Feres sabia estar contente e fazendo um papel perfeitamente ridículo. Desesperado, acordou. E teve consciência de que deveria levantar e ir ao escritório.
Tudo na manhã é mais dolorido: os primeiros vagidos dos carros, a luz crescendo e expandindo seus tentáculos na mobília, a morte dos últimos fantasmas. Lúcio Feres sorve o café, olha com circunspeção para a garrafa de uísque escondida sob a pia e, sem ter tomado banho, fecha atrás de si a porta.
- Bom dia.
Lucineide não responde. Ou melhor, responde com um grunhido ininteligível. Da próxima vez não cumprimento. Mas ele vai cumprimentar. Talvez, um dia, ela responda. É muito provável que não.
O escritório no centro da cidade faz parte de um complexo comercial construído nos anos setenta. Desde então as paredes parecem nunca mais ter sido pintadas. Da janela um dia feio se anuncia. Abrindo sua gaveta, Lúcio Feres pega uma edição de bolso de A metamorfose. “Certa manhã, depois de despertar de sonhos conturbados, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Lúcio sorri algo orgulhoso ao reler o início do livro, como se Kafka houvesse se dignado escrever a própria história dele, Lúcio Feres, o Diabo. Ou melhor: como se as páginas ensebadas dissessem, em sua língua de angústia, que ele fosse o próprio Kafka. Miguel Arcanjo nunca leu Kafka. Lucineide sorri e cruza as pernas. Miguel Arcanjo chega, a gravata, os punhos da camisa.
- Bom dia, Lulu.
Ela responde.
Vadia.
Miguel Arcanjo olha para Feres com um ar paternal. Dá bom-dia. Lúcio parece não dar atenção.
- Bom dia, Lúcio! – Miguel Arcanjo está agora divertido com a suposta distração do colega. Lúcio Feres, o Diabo, tem uma vontade inexplicável de ser simpático e, mui habilmente, inventa um sorriso de surpresa.
- Desculpa, Miguel, eu tava distraído. Bom dia. E o final de semana?
E o final de semana? O que eu tenho com o final de semana? Por que eu tenho de ser simpático?
- Parece que foi melhor que o teu. Ô, Lúcio, você precisa se cuidar um pouco, está abatido, rapaz. Que é isso que você lê? Humm...A metamorfose. Prefiro O processo. Mas você está mais para Um artista da fome, não é?
Feres se obriga a rir com mais energia: nunca leu Um artista da fome. Procura uma maneira brilhante de responder à brincadeira de Miguel, mas é muito tarde, ele já deu as costas e espera um olhar de aprovação de Lucineide, o que realmente acontece, embora ela não tenha entendido absolutamente nada do que falavam. São oito e meia da manhã, meia hora de almoço, final do expediente às seis. Miguel Arcanjo arruma a gravata e carimba com energia os documentos que Lucineide lhe trouxe com um cafezinho.
Eu não agüento, desse jeito eu não vou agüentar. Olha as minhas mãos! Elas não param de tremer. Preciso dar um jeito nelas antes que notem. Isso...embaixo da mesa ninguém vê nada. Mas...espera aí...por que estou me preocupando se vão notar ou não?Por que fico nervoso com o que pensam ou deixam de pensar sobre mim? Vamos, mãos, fiquem aqui em cima, tremam à vontade. Manterei um rosto firme e resoluto logo que percebam as minhas mãos tremendo. Olhem para mim! Sou um homem cujas mãos tremem. Miguel logo vai levantar a cabeça e verá o quanto tremo. Verá também meu rosto... meu rosto...impávido! Meu rosto impávido. Vai ser agora. Levante a cabeça, desgraçado! Não, não levante. Melhor deixa-las embaixo da mesa. Ele viria com aquela conversa de saúde, de bebida, isso seria de morte, não tenho paciência com esse tipo de gente.
-Lúcio, vem cá.
Ele se levanta prontamente. Miguel segura uma folha com um ar de enfado.
-Lembra que eu te pedi para revisar este texto aqui?
-Pois não, eu o fiz.
-Nãnãnã. Dá uma olhada no início do segundo parágrafo.
Lúcio olhou.
-E?
E aí que você deixou passar a palavra “intinerário”. É “I –TI-NE-RÁ-RIO”, sem “n” na primeira sílaba.
Esse palhaço vai ver. É agora.
- É melhor a gente pegar o dicionário, Miguel.
- Pega lá, mas você vai quebrar a cara.
Lúcio pega o dicionário que está, milagrosamente, na mesa de Lucineide. Como se fosse Alexandre prestes a humilhar os persas, percorre a letra “i”. E cai do cavalo. Itinerário, itinerário, itinerário, palavra estúpida, língua estúpida que anasala tudo e confunde as pessoas.
-Viu, Lúcio? Um rapaz que lê tanto como você não pode cometer esses deslizes...
Serei superior. Vou lhe dar uns tapinhas no ombro, aceitar minha derrota.
Voltar para a mesa é doído. Feres tem impressão de que pode desmaiar a qualquer instante. Sua frio. Pega um copo d’água, suas mãos tremem demais e ele se molha. Lucineide vê o que acontece e vem, preocupada.
-Ô Lúcio, senta aqui, você não vai bem mesmo.
Ela fala baixo, Miguel não percebe nada e continua carimbando. Lucineide senta Lúcio num banco ao lado do filtro de água. As mãos de Lucineide são quentes. A voz de Lucineide é macia. Lúcio Feres percebe o desenho na renda do sutiã cor-de-rosa. Arabescos numa mesquita sob um sol de cereja. Me perdoa meu amor, nunca mais te chamo de vadia.
- Quer sair, tomar um fresco? Melhorou um pouco?
- Não te preocupa, Lucineide. Obrigado. Feres segura os dedinhos de Lucineide. Que ela retira com muita delicadeza e discrição.
São onze e meia. Há uma hora, desde que foi socorrido por Lucineide, Lúcio Feres desenha bolinhas pretas nas margens de papéis ociosos. Em cada bolinha, poços de deleite se abrem, mostrando, nas profundezas, pernas enroscadas, mãos perdidas em superfícies extáticas, murmúrios. Lúcio Feres abre a blusinha de Lucineide, o sutiã cor-de-rosa. Lucineide desce a calcinha enquanto dança sobre a mesa de Miguel Arcanjo, o canalha nem imagina. Vem, Lúcio, vem. O perfuminho patchouli.
-Puta que o pariu, Lúcio, você não tem educação?
Miguel está possesso. Os dedos tapam o nariz.
-Peidando desse jeito, ainda na frente de uma moça!
Lúcio Feres não entende nada. Percebe o cheiro, uma coisa horrenda. Se foi ele ou não, agora está perdido. Em um ato de desespero, lança para Lucineide um olhar que fica entre o pedido de desculpas e de socorro. Ela baixa os olhos, o rosto enojado. Miguel continua encenando a tragédia dos séculos, espremendo o purificador de ar até o último esguicho. Lúcio abre a gaveta e pega uma tesoura. Você não tem direito, canalha, não tem. Puxa a tesoura e pressiona a ponta contra a coxa, mas a dor não é suficiente; ele corre para o banheiro e, não estivesse surdo de humilhação, teria escutado Miguel gritar algo sobre dar a descarga.
Não chore, estúpido, não chore. Molhe o rosto. Isso. Agora respire. Vai passar. Repita comigo: vai passar. Quem são eles? O que são eles? Não têm sensibilidade, não têm amor, são uns escroques. Uns merdinhas que trabalham num escritório merdinha. Você não, você está só de passagem. Um dia vai ser descoberto. Um dia será decididamente um artista, alguém que influenciará a vida dos outros, alguém com a tocha nas mãos. Tudo isso são provas, sofrimentos inerentes a uma vida nobre. Abra o espelho, pegue o cigarro que está ao lado da pasta de dentes. Relaxe. Lembre-se de Kafka. Dostoievski. Henry Miller. Todos miseráveis. É possível que um deles também tivesse chatos.E, no entanto, gloriosos. Sente-se melhor? Dê mais uma tragada. Glorioso. Lúcio Feres: um homem do século. Está melhor? Agora, com muita calma, levante a tampa do sanitário. Olhe para o seu reflexo na água.
Lúcio observa os traços de seu rosto compostos como se fossem sombras de vidro. A água é transparente, e não lhe nega a expressão de vitória que sente pulsar nos olhos. Contempla-se, mudo e contente, num vaso sanitário. Oh, Lúcio Feres, o que mais te poderia acontecer?
No fundo do vaso, a água torna-se mais e mais turva. Imerso em si, ele mal nota a transformação, até o momento em que seu rosto some numa superfície de mármore. Surpreso, mas não assustado, Lúcio Feres toca com o indicador a água e encontra resistência: está sólida! E perfeitamente branca. O cigarro queima nos dedos, ele grunhe e leva a mão à boca. Ao voltar para o vaso, lá está a superfície branca. Ele não sonha.
Não tenha medo. Continue me escutando. Olhe com atenção para o fundo do vaso. O que vê?
- Parece o desenho de uma galáxia...estrelas,planetas...espera aí, você, na minha cabeça, sou eu?
Sim e não. Continue olhando. Descreva-me o que vê.
- Os mesmos planetas...Luzes. Um planeta vai ganhando o primeiro plano...ei, é a Terra!
E...
- A América do Sul, o Brasil, minha cidade! Nuvens...Pessoas andando. Nas avenidas. Parques. Por acaso eu me droguei?
Digamos que, metaforicamente, eu esteja mais perto disso.
-Quem é você, Deus?
Adivinhão.
-Eu sou Deus?
Mas como você é pretensioso. Não, não é. Você é uma manifestação minha. Assim como as galáxias que você viu e tudo o mais. Sonhos meus.
- Não diga...eu, um sonho seu. E meus sonhos são sonhos de sonhos.
Não entre em questões que o confundiriam. Vamos ao que interessa. Vim para fazer um convite.
- Um convite a...
A que você se abandone. A livrar-se do seu ego.
- Um Deus budista.
Que pode bancar o Jeová com os engraçadinhos de plantão.
-Ok, Deus, não está mais aqui quem falou. Por favor, me explique sua proposta.
Tentarei explicar. O fato é que você acessou um atalho no seu inconsciente.
-Como?
O patchouli de Lucineide. Em algumas pessoas o patchouli tem um potencial xamânico. Em outras... Bem, é melhor continuar. O perfume abriu um canal em sua mente e você entrou em contato com o Divino. E agora o Divino fala com você e quer ajuda-lo.Preste atenção. A Divindade, o Inominável, manifesta-se em várias formas. A todas concede o dom da individualidade, para que possam retornar a ela e desfrutarem da onipotência.É como se imprimisse o gene divino em cada uma delas. Entendeu?
-Mais ou menos. Continue.
O destino de todos é ganhar experiência nesse mundo de ilusões e, após um período de tropeços, dizer chega, levantar a cortina e viver com o Real.
- E o real é você.
Estou sorrindo de satisfação.
-Gostaria que você experimentasse a deliciosa ilusão de trabalhar com Miguel Arcanjo.
E você é tão melhor assim do que ele?
-Você é Deus e não entende de lógica.
Quer que eu banque o psicólogo malvado? Você morre de inveja dele e não confessa isso para si mesmo. E ele já leu Em busca do tempo perdido duas vezes e você cita Proust em seus ensaios sem ao menos ter passado da página 20 do primeiro volume. Mas não é isso que interessa, precisamos correr, pois o efeito do patchouli passará em breve.
- Não admito que você venha e me diga no banheiro do trabalho que sou uma ilusão e que preciso levantar uma cortina sei lá onde e viver com você o resto da eternidade. Eu sou real, minha dor é real, sou um artista talentoso e Proust é um chato de galochas.
Lúcio Feres, seu ego é uma mentira, e eu bem que gostaria de dizer que é uma mentira criada por você mesmo. Mas não é.
-E de quem é, então?
De um escritor maranhense.
-Hã?
E num conto de encomenda. Não é nem um dos melhores. Há passagens em que até você escreveria com mais competência. O parágrafo anterior ao nosso encontro, por exemplo, está cheio de aliterações. Olhe para o sanitário. Você o vê?
- Ele precisa fazer a barba. Sou um personagem desse cara?
Você pode se libertar. Encontrar seu verdadeiro eu. Deixar toda a ficção que é sua vida para trás. Aproveite, você está tendo uma experiência mística de última geração. Anote este número, rápido! Na caixa de cigarros! 1234. Hoje, antes de dormir, repita-o mentalmente. Você me acessará de novo. Eu o ajudarei. Eu o ajudarei...Eu.... aju...
A voz some na mente de Lúcio Feres. Ele olha para o sanitário: a água está límpida. O dedo arde por conta da queimadura do cigarro. Sente o peito menos oprimido, as mãos não tremem. Decide abrir a porta, voltar ao trabalho. Miguel Arcanjo e Lucineide acompanham seu retorno à mesa, riso cínico em um, ar de reprovação na outra. Lúcio Feres parece não se importar. Abre a gaveta, lê a primeira página de A metamorfose. Gregor Samsa e os sonhos conturbados. Medíocres, Lucineide e Miguel Arcanjo. Ele puxa a carteira de cigarros que estava no banheiro. Vê o número, sorri com superioridade, amassa o pacotinho e o arremessa pela janela. Quem, no planeta Terra, teria uma inspiração para uma história tão boa? Uma pessoa como ele não precisa de Deus, somente de si mesmo. De Lúcio Feres, o Diabo.