Thursday, August 04, 2005

Partida

Outras ilhas, muito mais, além do porto.
Antes fácil, a voz salina das sereias
renascendo o júbilo e a cruel
Máquina celeste. Outrora antigo
o leme
modula um novo corpo
de giros e de linhas
para um sol castanho. Mais ilhas e além
muito mais
que a própria vida.

Tuesday, July 19, 2005

Fundamento

Mar inconcluso, palavra inscrita em úlcera
na vertigem do sal, sob a fala.
O mundo é entregue.
O sangue da voz, se o tange
não rouba ao solo
o susto do vôo.
Por que então maturar o canto
se o que no ar existe
recusa a paz do
alfabeto?

Friday, July 01, 2005

Da Água

Da água se arrancas a palavra
será esta de todo fictícia:
ou virá em reflexos, esbatida
ou interna falará suas próprias vísceras.
Se da água tomas o que nela entranha -
a voz de outrem, e a tua própria, litorânea
tomas tão só o que nela a consumia:
a tua dor e a dor alheia repetida.
A água, se translúcida, mente ao nervo
mente por mostrar, sendo clara
sua outra parte que ao lodo se emaranha:
nela o pasto onde o que é morte ainda é espera
por não se ter formada ainda a vida;
da água se arrancas a palavra
será esta de todo fictícia.

Thursday, June 16, 2005

Da Terra

Escuro,enfim, é o passo
na entranha do piso em que antes
escura, repete a terra
o sono de extinto
pássaro

Friday, June 10, 2005

Do Fogo

Exílio de si, o fogo
se mastiga o tempo
da extinção
não matura o próprio
concluir-se: e devolvendo
à carne o prazer da
cinza
não limita
o que nele é fogo
ou fantasmagoria.

Tuesday, June 07, 2005

Sombra de Aquiles

O país e a terra que domaste, deixa-os
pois hora é dada para o sopro e dos escombros
que ora tens resta a figura, não mais dorsos
de heróis que decepaste no ocaso.
E só fantasmas a textura que ressente
nos teus dedos de chumbo - pares de guerra
resvalando sombra a sombra sem tocar
praia de antes em que vagou a fúria.
Ao batel, enfim, retorna e em rito
de espúria e grave idade liba os ossos
da vitória que não tua e o vão presságio
que esqueceu,ai tua vida - este naufrágio.

Saturday, June 04, 2005

Ruínas de Bizâncio

(A W.B Yeats)

Deram-me um ícone a queimar inteiramente.
É todo uma palavra, um
segredo calcado contra a bruma. Eu o to
co e seu incêndio em mim alastra
uma lembrança de raízes, uma
pátria emudecida.
Ali amdurecem antigas fontes
sob o pão entregue à cárie e mais crepita
o sêmen onde, mais abaixo
da cor ressona a torre anoitecida.
Deram-me um ícone e todo ele
vibra na exposta face que me dura.
Ah, já queimo os símbolos
e o ícone escava então escama a escama
e consegue, enfim, calar comigo.